JAPÃO DESEJA EXPORTAR SEU MODELO DE EDUCAÇÃO PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO E O QUE EU ACHO DISSO

JAPÃO DESEJA EXPORTAR SEU MODELO DE EDUCAÇÃO PARA PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO E O QUE EU ACHO DISSO

Quase um mês atrás, o IPC digital publicou uma matéria em português baseada em outra do Jornal Asahi sobre um projeto do governo japonês de, através do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia, vender o seu modelo educacional para países em desenvolvimento da África, Ásia, Oriente Médio e, também, América, imagino.  Três dos países interessados citados são Mianmar, Índia, Egito.  Parece que há um subsídio para o projeto, ou seja, o próprio governo japonês bancaria parte da empreitada.  Como não é um projeto humanitário, imagino que exista lucro no horizonte.  Enfim, estava com um texto encaminhado sobre essa questão fazia tempo e, bem, acho que agora ele sai.

Um ex-aluno me perguntou se seria interessante importar o modelo japonês.  Respondi que algumas características poderiam, sim, ser interessantes, mas todo o modelo não seria uma boa idéia.  Percebi, e isso ficou evidente até na briga na caixa de comentários da notícia, que para os que o utilizaram o sistema japonês, brasileiros e brasileiras que matricularam suas crianças, tudo era perfeito ou suportável em vista dos resultados.  Até onde fui, houve até o cretino que apareceu falando mal de Paulo Freire, ou quem veio para ressaltar os problemas do nosso próprio sistema.  Olha, não se trata de competição, o sistema educacional brasileiro funciona precariamente, com exceções, e o Japão tem um sistema muito mais homogêneo e é um país do primeiro mundo, com ótimos índices em testes internacionais.  Não há como comparar os dois modelos.  Ainda assim, já que o assunto é exportar modelos, sabia que o lugar onde trabalho, o Colégio Militar de Brasília, recebeu visitantes africanos dispostos a imitar o que é feito aqui?  Pois é… 
 
O que eu acho engraçado nessas discussões é que raramente – para não dizer nunca – vemos os ex-alunos/as ou mesmo as crianças e adolescentes que estão na escola neste momento aparecerem para defender o sistema.  Eu estudei em um colégio extremamente tradicional no meu 2º ano do ensino médio.  Cheio de regras, uma preocupação absurda com o nome da instituição, repressor ao extremo, com tratamento desigual dos alunos e alunas.  A maioria dos colegas odiava a instituição, muitos, hoje, louvam “a disciplina”.  Percebo a mesma coisa com certos ex-alunos e alunas do CMB.  Detestavam o colégio, burlavam as regras, às vezes, escaparam por pouco de uma carta de exclusão, mas, ao saírem passam a vender uma imagem de perfeição porque sabem que quem está fora do colégio militar idealiza o que acontece lá dentro.  Fica parecendo que criticar o sistema é desvalorizar-se a si mesmo, quando é, simplesmente, analisar um modelo com seus prós e contras.
 
Aí, na primeira semana de setembro, apareceu uma matéria na BBC Brasilapontando que o suicídio é a maior causa de morte entre os japoneses de 10 a 19 anos e que os dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro são o ponto ápice dos incidentes.  As aulas voltam no dia primeiro.  Para pais e mães é fácil elogiar de fora, será que um sistema que produz isso é saudável?  Mais ainda, vendável?  Eu poderia citar, também, a questão de gênero, o Japão é um dos países do primeiro mundo com maior desigualdade entre homens e mulheres, será que a escola não tem a ver com a manutenção dessa situação?
 
Não se trata de desqualificar o sistema como um todo.  Eu gostaria que certas características do sistema japonês, que são mais da cultura japonesa em si do que da cultura escolar, pudessem vir para cá.  Por exemplo, eu acredito que os estudantes deveriam ser responsáveis pela limpeza de salas e instalações da escola.  As crianças precisam aprender a valorizar os espaços que utilizam, o que é público.  Isso, aliás, é a prática nipônica no dia a dia.  Agora, uma proposta assim esbarra na nossa tradição escravista que nos ensina que trabalho manual é para os inferiores.  Já tive embates com turmas nas escolas em que lecionei por causa disso.  Os meninos e meninas de classe média e além acreditam que é seu direito sujar, porque alguém limpará por eles, os pobres sujam da mesma forma, mas se chamados a limpar, se ofendem, sentem-se humilhados, afinal, há professores que humilham crianças dizendo que seu destino é se tornaram lixeiros.  Repito, trabalho braçal, ainda mais com lixo, é algo que degrada e remete à escravidão.  Procurem saber quem eram os “tigres” no Brasil escravista.  
 
Trabalho em grupo e autonomia são outras características interessantes e, claro, seria importante que alunos e alunas tivessem mais respeito pelos professores.  Sim, mas isso se assenta na idéia de respeito aos mais velhos e às autoridades que está presente em toda a sociedade japonesa.  Agora, eu não gostaria que esse respeito se travestisse em subordinação e silêncio, ou possibilitasse abusos por parte dos professores.  Algumas práticas do sistema japonês seriam bem-vindas, mas um modelo fechado, repito, jamais seria saudável.
 
Os dois sintomas doentios mais evidentes do sistema japonês, e que qualquer consumidor de mangás, doramas e animes conhece, são o bullying (ijime) e as altíssimas taxas de suicídio.  Fora isso, eu já havia lido várias coisas, como a insatisfação dos universitários com o sistema educacional, especialmente com o que é ensinado ou deixa de ser ensinado durante o colegial; e da queda dos índices de rendimento nos exames internacionais, ficando atrás de outros países asiáticos como a Coréia do Sul.  Esse último ponto, o desempenho em testes internacionais, é uma das razões de orgulho do próprio sistema e ajudou a criar fascinação no resto do mundo. 
Fui em busca de outras críticas e encontrei vários sites japoneses apontando para problemas que se refletem na sociedade de lá (Ex.:*123*).  Um deles, a falta de criatividade.  Os alunos são empurrados para a conformidade, agir como grupo, se destacar é perigoso e a falha pode envergonhar a família inteira.  Foi apontado mesmo que a maioria dos estudantes japoneses chega à faculdade sem prática de laboratório ou mesmo saber fazer uma apresentação de power point.  Sim, aqui no Brasil seria pior, mas estamos falando de um sistema educacional de primeiro mundo não de um que é desigual e precário.
 
Os próprios jovens japoneses reclamam que o sistema parece viver em função dele mesmo, há até uma seqüência do anime clássico de Sailor Moon que brinca com isso, uma conversa entre Jedite e a Rainha Beryl, acho que no episódio em que Amy aparece.  A competição é atroz desde muito cedo, com as crianças disputando as melhores escolas e os uniformes mostrando quem é bom e quem não é, mães sendo culpadas por seus filhos e filhas não conseguirem ingresso em escolas de elite e alguns meninos e meninas se matando por causa disso.
 
Enfim, os alunos do último ano do colegial têm exames quase toda a semana, com ênfase na decoreba (*algo que eu já tinha notado em animes e mangás*) e não tem tempo para mais nada.  A competição pelas melhores escolas e universidades se reverte em uma exibição que não tem como fim a vida prática, mas mobiliza pais, professores e alunos.  As turmas são lotadas e os professores não tem tempo para um atendimento individual.  Daí, além da longa jornada escolar, muitos alunos precisam ir para os cursinhos (juku). 
 
Isso tudo é sintomático de um sistema que não vai bem e os japoneses estão perdendo posições para rivais coreanos e chineses no seu campo de excelência. Encontrei até um site em inglês, feito por um aluno estrangeiro em universidade japonesa, que apontava que os japoneses têm aulas de inglês desde muito cedo e são cobrados ao extremo na escola, mas poucos conseguem se comunicar minimamente no idioma.
 Enfim, eu não gostaria de ver minha filha em um sistema como esse.  Aliás, na minha disciplina, História, parece que a bolha é ainda pior, porque, bem, os livros omitem muitas informações, especialmente sobre o expansionismo japonês e a 2ª Grande Guerra, e mesmo material como Gen, Pés Descalços anda sendo retirado de algumas bibliotecas escolares.  Isso tudo que escrevi não significa que estou dizendo que o sistema japonês é um fiasco, mas que seus resultados e a imagem idealizada acabam mascarando problemas que somente os usuários, os alunos e alunas, podem perceber e o normal é que os adolescentes e crianças não sejam ouvidos, alguns acabam se convencendo que está tudo bem e repetindo o ciclo, outros poucos conseguem quebrá-lo, como o bibliotecário da matéria da BBC.  A maioria, no entanto, acredita que as coisas são assim e pronto.  Na verdade, as coisas sempre podem ser diferentes, mas mudar é difícil, porque implica, muitas vezes, em jogar por terra as certezas que temos.
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FONTE: http://www.shoujo-cafe.com/2015/09/japao-deseja-exportar-seu-modelo-de.html. Texto escrito em reblogado aqui com autorização expressa da autora!

Sobre Arnaldo

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