Enem: uma ideia interessante que já começa a ser deformada pelo governo Temeroso

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Arnaldo V. Carvalho*

Dentro do todo da educação brasileira e seus sistemas formais, o Enem não foi uma má ideia. Ele gerou maior adesão de estudantes, mais acesso e diversidade de escolha, melhor distribuição na ocupação das vagas das Universidades. Puxou novos métodos formativos, explorou a transversalidade de forma rudimentar (bem razoável na comparação com o que se tinha antes), gerou questionamentos sociais importantes através do tema-chave de suas redações, a cada ano. Contudo, o exame começa a dar sinais de que incomoda, e já começou a ser deformado nesse segundo ano de governo Michel Temer.

Essa semana o empresário que atualmente comanda o  Ministério da Educação anunciou que o Enem não vai mais valer para certificar a conclusão do ensino médio. Ao mesmo tempo, lançou consulta pública com três perguntas:

  1. O Enem deve passar a acontecer em um dia só?
  2. Caso em dois dias, deve seguir sendo sábado e domingo, ou passar para dois domingos, ou ainda, domingo e segunda, decretando feriado escolar neste último dia
  3. O exame deve ser prestado em um computador, ao invés de no papel?

De cara, minha leitura sobre essa medida arbitrária (pouco comentada) seguida da consulta pública é que os políticos começaram a achar que podem seguir fazendo seus mandos incoerentes, desde que se crie um desvio de atenção. A “consulta pública” pode criar uma máscara de “democracia”, deixar o governo com cara de quem escuta, e quem sabe até agradar a certos grupos sem lhes dizer “não” na cara.

Então a quem interessa separar o Enem da conclusão de ensino médio? Sabemos que na orientação privatista do governo, o foco será mais uma vez separar o ensino do operário, que volta a ser predominantemente técnico, daquele que promove a reflexão, a visão crítica da sociedade, a consciência global das situações. Enem deixa, assim, de ser para o sujeito cujo destino é trabalhar em empregos de menor status/remuneração. A confirmação disso vem da fala do próprio ministro, que  afirma que o Enem “cobra mais do que o necessário” para o ensino médio. Que estranho, achei que o exame buscava avaliar a preparação do aluno relacionada aos seus anos de escola.

Então vamos simular uma situação. Seu João não terminou o ensino médio. Entrou no mercado de trabalho, cresceu, virou gerente de supermercado. Seu João que seguiu afiado na leitura, que é bom de contas, que aprendeu aqui e ali decidiu que iria fazer uma faculdade de gestão. Até ano passado, seu João prestava o Enem, pedindo que o exame lhe validasse o segundo médio (mas é óbvio, se sua pontuação demonstrou, como não validar?). Agora, seu João vai fazer o Encceja, e depois vai fazer o Enem. Vai pagar duas incrições, vai gastar tempo fazendo duas provas, que no final das contas, deveriam dar conta dos mesmos conteúdos… Qual é o sentido disso?

É verdade que, se formos visceralmente nos questionamentos da cultura educacional no Brasil, vamos nos perguntar sobre  o que leva a necessidade de um exame anual para certificar o ensino médio, seja pelo sistema que já era aplicado antes do Enem (Encceja), seja do próprio Enem. Um exame como esse é no mínimo o reconhecimento de que não é preciso passar pela formação escolar para se obter uma certificação, e deixa a prova que a educação no Brasil é completamente desestruturada. Mais fundo ainda e questionaremos provas e exames, o ensino forçado e emburrecedor, etc. Não vou, porém por esse caminho nesse artigo. Só não posso me omitir a afirmar: a educação vive de tampar buracos, de criar remendos à situações que não eram para existir. Fico me perguntando até que ponto o INEP, responsável por tais exames, não funciona em certos departamentos como mais um dos cabides de emprego.

E quanto a isso tudo, não temos voz. Não houve consulta pública para a questão. As perguntas da consulta pública, por outro lado, devem procurar agradar a elites religiosas que querem o fim do exame no sábado por questões de crença, reduzir custos passando o exame para um dia só, e criar novos sistemas de exclusão através do exame por computador (o quanto esse Brasil de Deus é realmente informatizado? Quantos estudantes cresceram habituados com o uso diário do computador para ler e escrever? Quanto mais para fazerem provas). Para essas coisas há consulta pública – para o que não pode ser bom para a população, independente das opções de escolha.

Arnaldo V. Carvalho estuda pedagogia no Iserj, é pai, terapeuta e professor de terapias naturais, autor do livro “Shiatsu Emocional” e participa ativamente dos processos políticos e sociais no Brasil.

 

 

 

Links relacionados:

Enem não certificará mais ensino médio, confirma ministro

http://noticias.universia.com.br/tag/mudan%C3%A7as-no-enem/#

http://www.inep.gov.br/

https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSd12tO0PkB85TtapYKRr8lix5JKi9Xg7qqN9_iAcyrhSVsfNw/viewform?c=0&w=1

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Sobre Arnaldo

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