Um balanço da ocupação do Iserj (maio)

Um balanço da ocupação e precarização do Iserj até o momento

Arnaldo V. Carvalho*

 

Com a precarização da educação que levou os professores a greve iniciada em março, o ISERJ se desmobilizou. O Instituto esvaziou, os alunos perderam o fôlego. Bem que se tentou fazer diferente: No início, professoras engajadas do ensino superior buscaram junto a seus grupos de trabalho e estudo criar movimento de ocupação educativa. Palestrantes e professores foram convidados, e um calendário começou a ser feito. Mas houve uma contra-ação dupla. Uma da parte da instituição que não incentivou o processo em momento algum, e por outro lado, os próprios estudantes pareceram bastante passivos, ou mesmo desinteressados pelo processo. A iniciativa foi interrompida mal tendo começado.

 

(Quais são as causas do desinteresse? Leia aqui a minha análise, em um post dedicado somente ao assunto)

 

Se o superior esfriava suas engrenagens, não se pode dizer o mesmo dos estudantes do ensino médio da mesma instituição. No dia três de maio, anunciaram a ocupação do prédio do Instituto. Ao andar do superior, foi comunicada a ocupação, sob a promessa de que os estudantes não impediriam as atividades ali ocorridas. Mesmo assim, as salas foram trancadas sob mando da Faetec. Os alunos assumiam sua escola em um caráter pacífico, e ao que tudo indicava, aberto ao diálogo. Dois dias depois, enfrentaram a repressão oriunda de uma direção além-ISERJ (o Iserj é mantido e subordinado à FAETEC). Houve bate-boca entre alunos, pais e professores, e ao que contam as testemunhas, ameaça a integridade física da diretora do Iserj, bem como agressão contra uma aluna. A partir dali, os estudantes passaram a enfrentar sérias represálias. O grupo foi criminalizado, a agressão contra a diretora ganhou mais importância que a agressão a aluna, a situação em que o Iserj se encontrava – e que motivou os estudantes a ocupação – ficou em segundo plano, a representatividade do grupo de alunos que aqui estava foi questionada, e qualquer possibilidade de transformar a experiência da ocupação em meio de educar foi bloqueada.

A Faetec tratou de colocar o ensino superior contra o médio e fundamental, paralisando as atividades que seguiam em paz, e prejudicando a vida dos alunos e dos estagiários advindos do superior de Pedagogia. A ideia é transformar ocupação em invasão, repudiando o ímpeto jovem. Ações que pouco combinam com a ideia de educação.

A contrapartida foi inversa: os alunos diariamente varriam o Instituto, buscaram levantar os problemas da instituição, fizeram esquemas de segurança na portaria, criaram um calendário de atividades. Pela Internet, via-se que o número que ali estava e que “pouco representava” era na verdade muito maior. Naturalmente, parte dos alunos, que apoiavam o movimento não participavam fisicamente, por medo, por bloqueio dos pais, por dificuldade de transporte, etc. Mas estavam ligados, mobilizava-se para tentar conseguir oferecer aos colegar o mínimo de infraestrutura, o que incluiu água e comida, bem como produtos de limpeza.

Ainda no dia 5, surgiu o receio em relação à natureza da ocupação, e principalmente, se haveria possibilidade de interrupção forçada dos trabalhos em andamento durante a greve (estágios, por exemplo). A ideia formada era de que a mesma bloquearia as atividades realizadas no superior, o que pelo que foi esclarecido jamais foi a ideia do ensino médio. Dessa preocupação pude emitir as seguintes reflexões:

Sobre a natureza da ocupação (dia 5 de maio)

Estive terça no Iserj e ontem com uma turma do superior que está organizando a assembleia de alunos. Os ocupantes, oriundos do ensino médio, disseram que não interromperão quaisquer atividades do superior.

O que de fato será a ocupação é uma pergunta que também me faço. Naturalmente, responder o que é uma ocupação difere do que é essa ocupação. Sobre essa ainda não digo muito, pois não os ouvi [os estudantes]. O que ouvi foram opiniões advindas de estudantes e professores do superior, que não sei sem os ouviram. Tais opiniões afirmam que a ocupação não é representativa, que os alunos que ali estão são irresponsáveis, expondo ao Iserj e a si próprios a uma série de riscos, e de que na verdade mal sabem porque estão ali, o que reivindicam, ou têm noção das consequências a curto, médio e longo prazo para, novamente, si mesmos e para a instituição.

Mesmo que as críticas sejam corretas, é notório que as coisas estão bem erradas e o todo dos movimentos ocorridos no Rio de Janeiro, bem executados ou não (em índole e competência) são em seu conjunto a absoluta expressão de que a educação chegou a uma condição insuportável, e de que a imoralidade governamental tem o apoio da mídia hegemônica oligárquica, que abafa como pode e fica aguardando como abutre o destempero ou equívoco de um pequeno grupo para condenar a todos nós.

Tentando me colocar no lugar dos administradores da instituição, não consigo julgar os nossos [movimentos] (do Iserj), até porque há decisões que estão fora de controle – como as que vem diretamente da reitoria (ex: corte das refeições ao superior) ou que provém de assembleia (como a opção pela greve). Na posição por exemplo da diretora geral do Iserj, dá desespero só de pensar no tamanho do problema que ela precisa dar conta.

De qualquer maneira é um salutar exercício pensar o que pode ser feito em relação a cada passo tomado pelas diferentes forças que compõem a realidade do Iserj (professores, alunos, terceirizados, etc.).

Perguntas que quem está na administração do Iserj precisaria responder:

1. Como se posicionar ante a ordem do corte das refeições?

2. E em relação aos atrasos de bolsas?

3. E de pagamento de funcionários?

4. E em relação as greves?

5. E quanto aos que não aderem?

6. E sobre a ocupação?

7. E o calendário escolar?

8. E na integração com as demais instituições de ensino igualmente a sofrer?

Vamos ver ser os irmãos mais novos escutam os mais velhos sábado, quem sabe se articula algo produtivo e não destrutivo.

A preocupação com a natureza da ocupação estendeu-se para a assembleia  que se fez no dia 7. Questionamentos diversos, reforçando a questão do direito ao ir e vir, a continuação dos trabalhos que seguiram vigentes, à segurança bem como da representatividade de tal reunião. Sobre isso, discorri o seguinte:

– Pode ser que a entrada dos alunos do superior na ocupação pode vir a trazer uma atmosfera absolutamente melhor. Serão adultos, jovens adultos que talvez possam mediar com os irmãos mais novos a razoabilidade em se manter as atividades do Iserj em meio a greve, sem lhes tirar o direito de protestar através de uma ocupação produtiva. Produtividade essa que talvez também possa ser melhor articulada com o superior participando.

Nesse momento, não sou contra ou a favor de ocupações. Tudo depende da forma como ela ocorre. Com certeza sou contra ocupações improdutivas, violentas, predatórias, sem uma articulação, estratégia e finalidade muito bem definidas.

E aí vai uma opinião: uma vez que a ocupação tenha se instalado, é talvez melhor e mais fácil torná-la “do bem”, produtiva, do que removê-la a força, o que também pode ser um desastre.

Estou tentando pensar em um lidar com a realidade, não produzir um modelo de “como deveria ter sido”. Fico me perguntando como Paulo Freire faria uma hora dessas.

Sobre a representatividade pelo número reduzido de alunos, devemos lembrar que o jovem e adolescente hoje possui um outro modo de vivenciar a sua realidade. Eles utilizam ostensivamente o mundo virtual, as redes sociais, etc. Saber se aquele grupo fisicamente manifesto representa uma proporção significativa dos demais alunos precisa passar pela realidade virtual, pois diversos deles podem não ir por medo ou proibição dos pais ou por grana, etc., mas estarem totalmente de acordo, apoiarem a iniciativa.

Devemos lembrar que faz parte do educar incentivar a participação política e discutir as melhores formas de participação seria um tema incrível que uma oportunidade difícil como essa pode vir a propiciar, desde que os adultos hajam com rapidez e sabedoria.

Mas aí vai uma crítica: parece que entre eles (professores e alunos do superior, e mesmo pais dos alunos) há muito poucos. Então os alunos sentem-se órfãos, e criança sem adulto fica desamparada na auto percepção de seus limites.

(já no dia 7):

– Estive hoje na assembleia do superior. Vi um cenário bem distinto do caótico, ditatorial ou de ouvidos fechados. Os meninos [do ensino médio] pareciam bem conscientes, e muito tranquilos, honestos, responsáveis. Zero violência, zero depredação. O Iserj está caindo aos pedaços sim, mas pela total falta de cuidados anteriores. Acho que forças externas ao Iserj querem criar discórdia e medo, dividindo para nos enfraquecer e nos conquistar. Creio que conflitos ocorridos semana passada (os reais) não se repetirão. Há uma boataria para queimar o movimento estudantil (aliás, difamar tal movimento é histórico, uma estratégia velha e vil), quando eles deveriam ser apoiados. Mais do que apoio, o superior precisa igualmente se manifestar. Precisamos agir, e de forma eficiente, para sermos ouvidos e retomarmos nossas aulas o mais rápido possível.

A assembleia contou com cerca de quarenta alunos do superior, doze professores e foi assistida por ocupantes do ensino médio, que foram, repito, ótimos. Nenhuma atividade será interrompida pela ocupação, isso ficou garantido. O grupo do superior que estava la apoiou uma ocupação educativa por cerca de vinte votos a dois, e um calendário produtivo, combinado com o ensino médio, será montado.

Não citei na troca de mensagens que após o dia 5, a Faetec determinou que portas de acesso às salas de aulas e outras fossem LACRADAS e os diversos setores parassem suas atividades. Naturalmente isso formou uma pressão incrível sobre as reações estudantis, que passaram a ser vistas como as responsáveis pela parada total dos setores essenciais do Iserj.

Minha esperança positiva lançada nas reflexões daquele momento de fato não se confirmou, senão pelos traços de reação esboçados por uma parte muito pequena da comunidade acadêmica. Esta conseguiu realizar no sábado dia 7 uma pequena assembleia, composta de cerca de quarenta pessoas, incluindo quase quinze professores, para discutir apoio aos ocupantes do ensino médio. Após um intenso debate, que mostrou interessantes posições individuais, o grupo manifestou-se favorável a ocupação. Mas a legitimidade desse mesmo grupo não foi reconhecida, porque de fato, seu número era insignificante, quando se tem cerca de sete centenas de graduandos. Mais do que a conclusão pelo voto, a assembleia iconizou o individualismo. As vozes ali manifestas não formavam um grupo, mas um amontoado de posições individuais. E um grupo que não se sabe grupo não jamais poderá ser forte. De qualquer forma, a pequena assembleia e sua adesão à ocupação calou da parte de diretores do Iserj e da FAETEC o discurso para com os gremistas que dizia que eles não poderiam afirmar que o ISERJ estava ocupado (mesmo que só o prédio central) porque eles não estavam sozinhos no prédio central, pois existe ali o superior também. Apesar dessa importante contribuição, da boa intenção dos que ali estavam, e dos interessantes pontos de vista levantados, a reunião não foi capaz de alavancar um movimento de peso no superior.

De lá para cá o esvaziamento só aumentou, especialmente fomentado pela determinação de paralisação das demais unidades que seguiam funcionais (creche, educação infantil, estágio do ensino superior), e obviamente, repito, a conta pesou sobre a ocupação estudantil. Imagine o que é uma creche ficar parada, deixando sem alternativas as famílias onde os responsáveis trabalham durante o período em que os filhos lá estão. A ordem simplesmente jogou uns contra os outros dentro da instituição.

A diretora do Iserj já disse que se a greve terminasse hoje, o instituto não tem estrutura para seguir, antes de resolver os problemas estruturais, relacionados ao funcionalismo terceirizado, a precarização do prédio, entre outros (os motivos já apresentei neste post).

Nesse momento, o Estado demitiu o secretário de educação, um professor, e colocou no lugar dele o então presidente da Faetec, que havia entrado no ano passado e demonstrou-se um gestor seco, sem escuta ou criatividade para encontrar soluções, ligado a números e desligado das pessoas. A Faetec talvez ganhe com a saída dele, mas a educação como um todo não. De qualquer forma, a anterior mudança do governo estadual (Dornelles assume como governador), do governo federal (Temer assume como presidente) alinham politicamente as esferas governamentais, que precisam dar resposta rápida aos diferentes setores sociais para reduzir a alta rejeição com que já entram no poder e confirmar o afundamento dos adversários políticos (o ex governo do PT na instância federal). Assim, no tocante a educação, o Estado iniciou um processo de negociação com os servidores e com as diferentes instituições. As regras do jogo têm sido brutais, com imposição de corte de ponto, ameaças aos profissionais que encontram-se em período probatório, etc. Somaram a isso algumas promessas, e assim conseguiram que algumas instituições retornassem as atividades. Em outras porém, como Iserj e Uerj, os professores e alunos têm se mantido fortes em suas convicções do ensino fundamental e médio, no seguem em greve.

Assim tem sido o processo até aqui, e já estamos no final de maio. Em princípio, o semestre letivo não reinicia antes das Olimpíadas.

 

Arnaldo V. Carvalho: pai, terapeuta, educador, aluno de graduação em pedagogia do Iserj.

 

***

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Sobre Arnaldo

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