O desinteresse dos alunos do ISERJ: sintoma global?

O desinteresse dos alunos no Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro: sintoma global?

 

Por Arnaldo V. Carvalho

 

Estamos nos aproximando de um fim. A greve dos professores no Iserj e a ocupação estudantil do ensino médio cada vez mais é reprimida pelo aparato do Estado, e embora resistente, observo tendência a nova sujeição dos profissionais e alunos a condições de trabalho, ensino e aprendizagem deterioradas.

O que marca a crise na educação do Rio de Janeiro não é o sucateamento que gera a greve ou as ocupações estudantis do ensino médio. É o silêncio. E não estamos falando do silêncio da mídia, que normalmente informa a população mais sobre quaisquer aspectos negativos que sejam reais ou plantados contra os estudantes, do que aquilo que realmente está acontecendo. Refiro-me ao silêncio interno dos acadêmicos, ao menos dentro do Iserj. Não digo todos. Mas do silêncio de grande parte dos estudantes do superior. Contam-se nos dedos os que, como colibris, seguem tentando apagar o incêndio da floresta com o bico.

No Iserj, o movimento praticamente inexiste, à exceção de uma ou outra voz, isoladas pela falta de um uníssono, de um norte de consciência em comum, e mesmo de quórum. No Whatsapp, o principal meio de comunicação entre alunos de uma mesma turma, pipocam as perguntas de “quando voltaremos a ter aula”, e reclamações diversas acerca do atraso na formação. A hegemonia da preocupação com o individual prevalecendo sobre o coletivo revela que a desmobilização não vem apenas de fora, do aparato repressor do Estado, ou das direções do Iserj e Faetec (a qual o Iserj é subordinado). Ela ocorre também por uma mentalidade alienada e bem estabelecida nos indivíduos que hoje encontram-se em graduações como a de pedagogia, marcadas pela desvalorização social. E isto é a culminância de um antigo processo histórico.

Qual é a origem desta mentalidade, e porque ela ocorre de forma tão grave entre os estudantes do Iserj?

A resposta a essa pergunta encontra-se em um degradê de outras questões, que vão de se pensar o que motiva alguém a fazer pedagogia, passando para o que motiva alguém a fazer pedagogia no Iserj, e chegando à formação de uma mentalidade acadêmica em uma instituição jovem, em termos de ensino superior.

“Professor sofre”. Essa frase, que parece estar entranhada e fazer parte da realidade de qualquer pedagogo no Brasil, guarda em seu íntimo o quão desvalorizada é a profissão. Mal remunerada, mal reconhecida, com atuação sob condições péssimas, só muito raramente é uma primeira opção na vida de alguém. No banco de ofertas de graduação em Pedagogia no Rio de Janeiro, o Iserj muitas vezes sai perdendo na primeira escolha do candidato do SISU/ENEM, apesar de sua tradição e bom desempenho em concursos da parte de seus ex-alunos. Há fatores diversos que justificam o fato: embora a formação de professores seja conhecida, a graduação em si é nova, e o Iserj não é universidade. Isso cria obstáculos a quem deseja se dedicar a campos diversos dentro do escopo da pedagogia, o que não ocorre em universidades com cursos bem estabelecidos e programas de pós-graduação, como UERJ, UNIRIO, etc., que aliás, também competem quando o assunto é localização: ambas são muito próximas do Iserj. Em compensação, o Iserj oferece turmas nos três turnos (manhã, tarde e noite), e as notas de corte da Pedagogia no Iserj são mais baixas. Isso significa que ele é uma porta de entrada em quem encontrou dificuldades para ingressar em outras instituições, e em outros cursos. Surge o estímulo necessário para a faculdade receber uma quantidade significativa de alunos cujo perfil está marcado por um histórico de baixo rendimento escolar. Os motivos são conhecidos. Escola pública sucateada e péssimas condições de vida, moradia, alimentação, acesso a programas de saúde, falta de infra-estrutura na região onde reside (quase sempre em zonas periféricas), etc. Muitos alunos incluem ainda em suas trajetórias o ingresso precoce no mundo do trabalho, e só agora retornam, já com filhos e empregos. Estamos falando de um grupo social onde entre suas famílias, a larga maioria é pioneira no que se refere a fazer uma faculdade*. Ingressar no ensino superior sob essas condições é, em si, um verdadeiro “malabarismo”. Como desenvolver consciência política em meio a tantas adversidades?

Esse aluno é um indivíduo inexperiente no que se refere a participação em uma vida acadêmica. Ele tem uma história marcada por encalços formativos, e cresceu sob julgo de uma sociedade que condena movimentos organizados de reivindicação, e cultiva a alienação como forma de garantir o controle social. Ou seja, foi criado para fazer o que faz hoje. Espera pela greve, reclama pelos cantos, preocupa-se antes com seu diploma do que com o que está acontecendo no Estado em que vive.

Assim, instituições como o Iserj funcionam hoje como espelhos da apatia social vigente. Nossa sociedade não pára de dar mostras de que não sabe funcionar “politicamente”. A distorcida visão de greve e ocupação por exemplo. Greve é uma prática política necessária à formação da consciência da classe trabalhadora, e só ocorre ou deve ocorrer quando a sociedade encontra-se em desequilíbrio nas relações empregador/empregado. Já a ocupação tem um caráter novo. Ela revela o desequilíbrio relacional entre consumidor/contribuinte e fornecedor/governo, onde um serviço público, pago com o dinheiro do povo, não atende em condições mínimas. Mas o sistema e a mídia qualificam negativamente a greve e a ocupação como atitude de gente “baderneira”, “vagabunda”… Historicamente, a greve é um direito conquistado/garantido pelo trabalhador (e é dever legal do empregador negociar com o trabalhador em greve!). Mas o sistema age para evitar a greve e não para garanti-la, como deveria ser feito. Deprime ter esse direito tomado pela visão de mundo burguesa.

Se esse perfil de aluno torna a reivindicação coletiva mais difícil, não se pode dizer que só esse lado da instituição enfraquece suas possibilidades de devolvê-la ao seu verdadeiro potencial. A campanha silenciosa pelo desmantelamento das organizações estudantis ocorre no mínimo desde a última ditadura militar, o que significa que mesmo os professores do Iserj já eram alunos em sistemas que reprovavam a reunião, a reflexão crítica. O ambiente débil da faculdade é reflexo também do desânimo de boa parte dos professores, sejam eles a favor ou contra a greve. Dentro de cada um deles habita um ex-aluno, um espírito jovial que precisa igualmente despertar.

O Iserj é um bisalho de diamantes. Tanta gente, com tanto potencial, e tanta história para dar corpo a um projeto incrível de educação, em tantas esferas!

Diamantes são feitos assim, no solo profundo, sob forte pressão. Com quantos diamantes eu convivo hoje? Muitos! O que nos falta? O Iserj, com seu imenso potencial oriundo de um professorado de alto gabarito, merece aprimorar sua abordagem na recepção de seu alunado. Precisa acolher esse aluno, reconhecendo nele um grau misto de vitorioso (estar ali é uma real vitória!) e demandante de uma estrutura que o permita conhecer e agir na força do coletivo organizado, em prol da sociedade, do próprio Iserj e de seus indivíduos, indissociavelmente. Finalmente, a direção do Iserj falta escuta e criatividade. Escuta para compreender esse aluno. É na compreensão de como cada um ali funciona que a arte de liderar saberá como trazer para fora o melhor de cada um), e é no pensamento criativo que encontram-se as soluções extraordinárias para problemas da dimensão do nosso.

Se conseguirmos vencer a apatia generalizada, esse sim verdadeiro sintoma global, renovaremos as esperanças do Brasil e sua moribunda prática educacional.

***

* Naturalmente, este não é um retrato apenas do Iserj, pois os cursos de graduação no ensino superior público e privado receberam muitos desses alunos através das políticas de inclusão, cotas, e financiamento estudantil criadas nos últimos anos no país. O histórico baixo status da pedagogia no Brasil só piora a situação. Contudo, repito, verifica-se através do SISU que a graduação em pedagogia do Iserj possui uma nota de corte mais baixa que o das demais instituições do Rio de Janeiro que participam desta forma de seleção de alunos.

 

Arnaldo V. Carvalho: pai, terapeuta, educador, aluno de graduação em pedagogia do Iserj.

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