O cenário tenso da minha faculdade

Começo este blog pelo fim. No dia 4 de maio (sábado), parte dos estudantes do ensino superior do Iserj decidiu apoiar a ocupação estudantil do ensino médio,  iniciada semana passada, sob reações extremadas de diversos segmentos da instituição.

Sou aluno do terceiro período do curso superior de pedagogia do Iserj – Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro, tendo ingressado por meio do ENEM. Desde o início de minha experiência como graduando do ISERJ,  observo problemas relacionados à precarização do local onde estudo e de outros locais que temos visitado. O contato direto com a realidade atual do ensino público superior é mais que desconfortável, é motivo de vergonha.

No Iserj, a lista é extensa, e vai de problemas estruturais nos prédios e dependências físicas, a falta de cuidado (para não dizer descaso) com o quadro de profissionais da instituição. Escutar de pessoas que a situação já ocorre há anos nem é necessária: basta percorrer os corredores e verificar os inúmeros problemas. Os professores já estão sem plano de carreira há alguns anos. A eminência do colapso atual, contudo, iniciou-se no ano passado, quando funcionários terceirizados (pessoal da limpeza, da segurança, do refeitório) tiveram atrasos em seus baixíssimos salários por três vezes (atrasos de pelo menos três meses em cada uma das vezes) e chegaram a efetuar paralizações. Atrasos também ocorreram em relação ao benefício dos alunos cotistas (que possuem direito a bolsas que dão pequena ajuda de custo a vale-transporte frequentemente tem seu benefício atrasado.

No final do ano, o presidente da Faetec, órgão estadual mantenedor do ISERJ mandou cortar as refeições oferecidas ao ensino superior. Segundo o mesmo, ele não tinha obrigação legal. Pode não ser ilegal, mas é imoral, e possivelmente, era desnecessário. Um bom gestor precisa de coração e criatividade para soluções éticas, dignas e eficientes. E esse presidente, de nome Wagner Victer*, não demonstrou possuir qualquer dessas habilidades.

Explico. A profissão “professor” no Brasil é uma das mais desvalorizadas (tanto em status como em retorno financeiro), e dificilmente se vê por lá pessoas de poder aquisitivo mediano, menos ainda alto. São pessoas oriundas da periferia, que vem de longe em trens apertados, que sem vale-transporte (outro benefício que tem falhado com frequência) simplesmente não tem dinheiro para a passagem. Há dias em que o graduando precisa por exemplo passar um dia inteiro na faculdade, entre aulas e o estágio obrigatório, e não tem condições de pagar por comida na rua. Uma pessoa em condições de fome cursando um curso superior? Sim, existem e não são poucos.

É preciso entender que dificuldades como essas fazem com que, muitas vezes, a inexistência de certos apoios simplesmente os impeça de cursar, impeça ele e sua família de crescerem, e os prende em situação de miséria.

Mas não para por aí.

Junto à precarização, o Estado têm procurado abafar o que ocorre, e quando as mídias publicam algo, normalmente é uma nota muito discreta, a menos que seja para demonizar os movimentos que tentam reagir de algum modo, pegando um ou outro infeliz caso isolado, ou associando a obra de vândalos com todos os protestos pacíficos e construtivos que têm ocorrido em escolas e universidades no Rio de Janeiro.

No Iserj, o atrito acumula divergências nas diferentes reações: há membros de nossa comunidade interna pró e outros contra a greve. Há os pró e contra a ocupação. Haver divergência é natural, e há boas razões para todos os lados. Mas tenho percebido que surgem iniciativas (oriundas de fora) que tentam nos jogar uns contra os outros, e o “dividir para conquistar” novamente se faz. E aí é algo que professores, alunos e pais do ensino básico, professores e alunos do superior, profissionais diversos, etc., não podem permitir que aconteça, ou será o fim.

Garanto a quem me lê: a maioria dos meus colegas é gente digna, que está lutando para vencer as dificuldades conseguir uma formação superior. Eles querem sim melhorar suas vidas, mas preferiram a educação à outras áreas com dificuldade semelhante de acesso porque, de algum modo, a educação os chamou. São pessoas honestas, capazes, e serão bons professores (por esforço próprio, talento, garra e ótimos professores), se conseguirem esse suporte mínimo. Muitos trabalham, estudam e têm de dar conta de suas famílias, embora no período de estágio isso seja um malabarismo impensável para muitas pessoas que não conhecem essa realidade.

A precarização das condições de trabalho, ensino e aprendizagem no Iserj são icônicas e com certeza representam o que ocorre em todo o Estado do Rio de Janeiro. Retrocedemos na qualidade da educação, sem entendermos que nossos filhos (incluam-se, leitores que podem pagar pelo ensino privado!) terão professores impactados por essa precarização, nos anos mais importantes para a formação socioafetiva. Regredir em qualidade de educação é a maior perda que uma sociedade poderia ter.

 

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Sobre Arnaldo

Arnaldo, pai, terapeuta, ser humano. Visite meu site e saiba mais sobre mim!
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Uma resposta para O cenário tenso da minha faculdade

  1. Perfeito amigo Arnaldo, somos jovens, seres humanos, com um ideal…um sonho… Não estamos pedindo muito, apenas condições dignas de poder estudar e sermos bons profissionais, assim como os nossos professores. Muito triste ver a desvalorização da profissão de professor. Quando digo, espero que tudo isso termine logo… Eu quero dizer: – Não vejo a hora de ver um final, que todos estejam felizes. Grande e fraternal abraço

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